28.12.18
a outra face
dou-te a outra face, a minha face da culpa e do perdão,
a face que te ofereci sem nada nas mãos,
sempre, durante a deambulação do amor,
para te encontrar onde não estavas
nem na ágora, nem na urbe, nem em nenhum
conceito de realidade assente no corpo
na desilusão de não seres, fui fechando uma a uma
todas as portas que abri, enterrei os ossos que deixei,
saí, maldisse a miopia e fiz-me mariposa
para alçar a nova demanda do Sol
para te buscar na multidão do templo
onde os homens vêm deixar a sede do deserto
e foi assim que, no dia em que te encontrei,
já não te reconheci, sem qualquer razão aparente,
apenas não eras o que nunca tinhas sido,
real, tangível e tangente
peço perdão e dou a minha cara
os sinais da face que me deste
- em palavras e em gestos - também não os vi corretos
na mistificação que o mundo nos prepara
por não conseguir ler, nas nuvens e na intensidade da luz,
o que estava escrito no coração, dou a face que faltava dar
e desço de nenhum pedestal para te abraçar derradeiramente
somos hoje o que sobrou da busca e do desencontro,
ossos no deserto, chuva seca, flores embaciadas,
e a sede, a indefinível sede da cascata que se plantou,
sem (eu) saber que haveria de correr através do tempo,
mesmo depois de o tempo deixar de correr
não importa o que se faça, vale mais saber porque se fez
e dizê-lo, sempre em poesia, mesmo sem poética nenhuma,
claramente. Foi assim. Ninguém quis assim.
Mas podia ter sido diferente.
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