26.12.18

livro sem folhas


podemos abrir um livro em extensão, com os dedos ler as letras,
ao mesmo tempo que, na vertical, passamos os dias que passaram
e o livro sem folhas, aberto sobre a memória, é um corpo pesado
com um intenso aroma de café e uma capa transparente que
mais esconde quando revela e mais revela o que esconde

e nada diz, na verdade, apenas se repete e se tange e se murmura
dizendo-se nos dias e nas noites,  às vezes nas manhãs,
como se nascesse todos os dias, nos lábios, um ser da natureza
mas sem celuloide ou sangue, apenas etereamente inalcançável,
materialmente etéreo, algo cuja única natureza é de um domínio outro
que o simples fluir dos olhos e das coisas do mundo

a sinopse está sempre a ser escrita, não precisa de o ser,
para ir sendo a narrativa impalpável de nada que aconteça ou tenha existido
mas narra onde descreve e descreve-se por dentro com sinais,
sinónimos e hiperónimos, sempre mais vagos e mais inerentes
para quem os souber decifrar, se para isso tiver alguma forma de existência

existe-se num livro, às vezes personagens viradas de avesso, outras
seres em busca de uma identidade apenas sua, sem o lugar comum
de estar no meio da escrita - o maior empecilho da humanidade
é não se ser mais do que espécime que reproduz o reproduzido
o traço genético impresso em tantos outros até à agonia de se ser
o poeta moribundo que cercou a vida e a levou inalcansável
para outro mundo - a essência da essência da nossa humana face
- o verbo querer

que fique firme no tempo a certeza de que o livro fica sempre incompleto,
morre-se entre duas palavras e renasce-se em outras tantas porque
o livro chama-se sentir e tem o subtítulo de esperança

que fique impressa a passagem do autor pelo tempo para que outro passe e diga,
ele foi o que eu sou e outros também foram e não chegámos todos a ser
aquilo que a nossa intensidade nos doou - inutilmente - morre-se
de exaltação - morre-se dentro, morre-se no livro para sempre
e as paixões ficam no tempo como epitáfio: passou, a amar,
sempre escrevendo


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