6.1.19

águas puras de partir


era um lago de cisnes
que cantavam continuamente sem morrer

as borboletas traziam o olhar distante
e os pinhais murmuravam o amor

entre o teu mundo e o meu nunca houve falhas
era uma planície contínua e produtiva, onde pousavem outras almas

a palavra cortava o corpo como espada
e com as palavras a poesia perturbava
quando tudo nos tolhia e libertava

talvez esse lugar longo e abstrato
essa visão idílica do passado
sejam o muro que hoje nos comporta
as águas puras de partir que se demoram
que nos contêm no outro lado
como um rio seco e apagado 

diz-me tu, porque o teu silêncio é a confirmação de tudo
e a morte que tenho receado
quando a sedução já não seduz
e o corpo é uma forma de passado

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