6.1.19

um cálice de chuva

um cálice de chuva cai na encosta
e toda a terra se expande
em brumas encantadas de mistério

onde foi que eu vivi a mesma noite
no mesmo lugar da mesma serra?

sou tanto eu neste lugar
que o meu corpo se emaranha de frio na hera
como se bicho da terra ou planta fora

nas minhas mãos extemporâneas
toda a razão se desvanece
fica a paixão acesa
um círio de sol agreste
o som do sino na serra se ergue
e eu, sublime, vou para o meu fado
num palácio algures na serra
nasci, cresci e tive amores
tive dores sem que as suspeitasse
até morrer à espera que voltasses

um destino cumpre-se sempre
sem as curvas ou desvios esperados

fui antes o que sou agora
ou sou agora o que fui, porque sempre
me faltaste?

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