13.1.19

lucidez


escrevo com a pulsão vital que me corre nas veias, ao correr do teclado, como quem fala. compreendo hoje que sou o que resta de mim e que me constituirá por mais uns anos. abeiro-me da vida como se ela fosse já a morte, mas vivo como se vive quando vivemos. gosto de sair de dia e de sonhar de noite. normalmente, o dia apouca a pele, quando se fica em casa e o sol não nos adere ao coração. entre o quotidiano há brechas que é preciso vedar com cimento-cola, daqueles que nos tapam os sentidos para não entrar o menor sopro de frio, nem de passado, nem de casas abandonadas na memória, nem sequer a memória que carregamos sozinhos e cada vez se amontoa mais. coisas inúteis. recordo coisas sem relaçáo com coisa nenhuma, mas aparecem e ficam, depois voltam a desaparecer, como uma viela às escuras que é iluminada pela lanterna do guarda-noturno, agora vigilante, ou segurança, não importa. o cérebro ilumina-se numa zona, depois noutra e, entre conexões e desconecções, acendem-se simpáticas sinapses ou pesadelos com 10 metros de terra sobre eles. ando para entender o cérebro maduro e cansado, quando o monte subiu e quase transborda e de tanto lixo guardado há peças estranhas que emergem, outras até raras.  é como nos velhos sotãos onde guardamos as vidas dos outros. essas sombras antigas prefiro que me afrontem de dia, quando as racionalizo com a minha mente analítica a ponto de as desfazer sob o peso da lógica de polir as veias, antes que qualquer espécie de lacunas me venham quebrar o pensamento. assusta-me o curto-circuito, onde o caos se instala no cérebro e todas as lembranças se interligam com os espaços errados e o tempo se dilui num só tempo - o de ter sido. também receio o esquecimento desta ou daquela situação, cena, enquadramento, diálogo, afinal de contas aconteceram, merecem um lugar qualquer nos favos da medula para verem o dia e confirmarem que vivemos. desconfio da imaginação que me costuma pintar memórias pouco fiáveis. os sonhos que tenho e são reparadores, contrabalançando o que me falta, também são memórias. fica-se depois na dúvida se existem ou não. aos sessenta sonhamos muito e misturamos vivos e mortos com a maior das naturalidades. somos ainda jovens e desejáveis, temos todas as idades, somos poderosos. construímos o nosso universo com aquilo que contou nas nossas vidas. entramos no futuro e analisamos os tempos, a ponto de não sabermos se sonhando o passado estamos a sonhar o futuro ou a desenhar o presente. mas não há melhor sensação do que a de ter a razão forte e lúcida da idade e a ironia íntima de nos sabermos ainda capazes de amar e controlar a nossa vida. hoje vou passear. deixo entrar o sol quando quiser. expulso-o a qualquer hora, como faço aos pensamentos flutuantes. está frio e pensar é doce como passear de braço dado com o sol, pela linha mais fina da existência. hei de comprar um tapete com asas e borboletas levíssimas como flocos de açúcar em claras que me levem a viajar nos dias em que o sol fica à entrada.

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