14.1.19

oração


deixai, Senhor, que aquela mulher passe
que as pedras lhe sejam leves e leve o dia
algumas mulheres são dotadas de asas
mas não têm céu para voar

deixai que os empregados cumpram os horários
sem que a pressa lhes dilua a fantasia
que eles olhem ao longe onde não há vias,
nem prédios altos, moradias,
mas o mar contente, o sol e a maresia

deixai sonhar o indigente
(no chão cheio de luz na avenida)
que não há buracos na camisa
nem lacunas na memória entontecida
alguns anjos que não voam
têm asas por abrigo e as mãos vazias

que a vida não esmague as raparigas
são borboletas de sonhos delicados
com linfa de rosas e margaridas
quando, soltas, sorriem para dentro
com o tempo nas mãos e as mãos vazias

os que concertam os buracos na calçada
entre o arrebol da tarde e o da madrugada
que a vida lhes conserte as contas já vencidas
e os filhos lhes cresçam para ir mais longe
onde a poeira não seque a garganta
e o barulho não ensurdeça a esperança

que todos percam as pedras do olhar
se perdê-las for um passo para o sol
que as asas, enfim, não sejam de ficar
mas de sonhar, talvez amanhã ou noutro dia,
que passem além da neblina
com o mês mais perto, a bolsa menos vazia

levai Senhor, o peso das palavras
para que a prosa se faça poesia
e dê a todos asas de voar
lembrai-vos também dos inocentes
que assim seja, amén, oxalá

Sem comentários:

Enviar um comentário

Deixa aqui um lírio

Recentemente...

Asserções

Uma onda é a resposta a outra, como um eco é a resposta a outro A atração, dois ecos que se encontram e se unem no mesmo som E o amor? Ah, o...

Mensagens populares neste blogue