15.1.19
Para as crianças do Bié
não passa de uma cidade surda
cuja voz não chega à Lua
com as suas pedras mudas
depois de cremadas ao Sol
mas é a cidade dos cães vadios
eles ladram como o vento
e roem a tristeza todas as manhãs
vivos no Bié
conservados em manchas de óleo
o canto dos coristas desenha uma igreja
onde se vai morrer às terças de manhã
só de noite o sono dilui a fome
em fibra de algodão que podia cheirar a pêssego,
a hortelã, a algo comestível,
uma ideia de fuga - talvez algum cão passasse
e a levasse para planíceis de chuva
ah, no Bié não há consumo
nem globalização ou coisa que preste
a vida começa e acaba na mesma idade
a mão que cria e mata é a mesma:
uma terra que secou o leite
e treme de suor e febre
as crianças são projetos inacabados
adorno-as com folhas de anjos esmaltados
porque a prata não lhes cabe nas mãos
e o peso do dinheiro é o seu fardo
no Bié, no século mais avançado,
à porta da choupana vive um velho,
ali parado, com o passado entre mãos
viaja na água como Cristo, um guerreiro africano,
sem armas, sem narratário, ungido
conta-lhes histórias, velho,
era assim dantes no rio...
era uma vez um país...
acorda nesses anjos um sorriso,
faz-lhes um carro tosco de madeira
uma boneca de olhos vazios
para que o seu peito se encha de ilusão
porque a fome rói o coração e o mundo
é um lugar (tão) indiferente e frio...
https://jornalf8.net/2019/crime-mais-de-160-criancas-morreram-de-fome-no-bie/
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