havia a casa do fogo
e nesse tempo o fogo era também a casa
sob a impiedosa canícula
ardiam aves pela calma
e cada verão era imensamente semelhante
à infância empacotada nas malas de cartão
com cartilhas e lousas e risadas
na casa o fogo tapava a boca de gritar
e o suor saía em bagas
os montes estalavam a cal
sem sombra
que os apagasse
havia a casa do medo
e a dos almocreves com panelinhas arrumadas,
junto ao lume a fervilhar
havia o poço e o eco e os bichos a rastejar
eu era então o olhar que via
perdida nas casas onde não podia entrar
cruzava as veredas e vagueava
mas todos os lugares me falavam
o tempo assim estendido
sem começo e fim nunca se acabava
um dia devo ter tropeçado em mim
e passei a ser também coisa observada
como se fosse outra eu era ela
na erva rasteira e ressequida, no celeiro,
na casa do fogo e na do medo
houve algures outra menina
assustava-me o silêncio comigo que era ela
(sei lá se era eu que a via ou ela me via a mim)
só sei que o tempo nos atou no mesmo molho
como as espigas tombadas pelo braço do sol
e ainda hoje vive nos meus olhos
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