10.4.19

a casa do fogo

havia a casa do fogo
e nesse tempo o fogo era também a casa

sob a impiedosa canícula
ardiam aves pela calma
e cada verão era imensamente semelhante
à infância empacotada nas malas de cartão
com cartilhas e lousas e risadas

na casa o fogo tapava a boca de gritar
e o suor saía em bagas
os montes estalavam a cal
sem sombra
que os apagasse

havia a casa do medo
e a dos almocreves com panelinhas arrumadas,
junto ao lume a fervilhar
havia o poço e o eco e os bichos a rastejar

eu era então o olhar que via
perdida nas casas onde não podia entrar
cruzava as veredas e vagueava
mas todos os lugares me falavam

o tempo assim estendido
sem começo e fim nunca se acabava
um dia devo ter tropeçado em mim
e passei a ser também coisa observada

como se fosse outra eu era ela
na erva rasteira e ressequida, no celeiro,
na casa do fogo e na do medo
houve algures outra menina

assustava-me o silêncio comigo que era ela
(sei lá se era eu que a via ou ela me via a mim)
só sei que o tempo nos atou no mesmo molho
como as espigas tombadas pelo braço do sol
e ainda hoje vive nos meus olhos


Sem comentários:

Enviar um comentário

Deixa aqui um lírio

Recentemente...

Assersões

Uma onda é a resposta a outra, como um eco é a resposta a outro A atração, dois ecos que se encontram e se unem no mesmo som E o amor? Ah, o...

Mensagens populares neste blogue