sombras e alvoradas foram tantas
e pardais tontos no excesso de luz
muitas as
nuvens descalças em tropel no céu
e o sol sobre as sementes
o riso e as rosas sempre
tanto foi tudo
o que liga os loucos aos poetas
e os seres enamorados, a poesia, enfim,
é finíssima teia e não sei
como fazê-la assim cheia
não sei fazer perfeitos hinos
com os zubidos do meio dia
nem dizer os cheiros e os abraços
para dentro das palavras, não sei,
moldar as cinzas em brasido,
soltar livre a poesia
há covas no meu mundo e ervas por arrancar
não é perfeito o tempo gasto em palavras
e não é possível dizer a palavra
pri-ma-ve-ra sem passajar o tempo:
buracos que houve em cada maio
nas constelações ao entardecer
grinaldas que sonhei nas estrelas
brancas e puras, porventura,
ninguém as soube fazer
todos profanamos o tempo
quando o tivemos
incomensuravelmente
pleno
é esse o segredo de podermos
ter sido no tempo o que não somos
quando tanto foi tudo
e tudo foi muito menos
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