18.4.19
o passo da chuva
eu ouço a calçada que geme sob a chuva
ouço tudo o que não vejo, como se o chão fosse eu
e a chuva os passos a pisar-me
eu que fui esquecida, ignorada, eu que não sou nada,
atravesso a noite, desejando a tempestade
alucinadamente, a chuva traz-me a saudade
pois pinga devagar como se tivesse sido musicada
por um compositor cego, incapaz de a dizer em palavras
parece que me impregna, a chuva, a ponto de me sentir
quase água, quase vapor, quase nuvem despedaçada
atravesso a vida quase sempre pelo passo da chuva
sempre atrasada, quase nunca a tempo de nada
e agora, mais forte, a têmpora recebe o som
quase martela nos sentidos esta queda de água
com um ribombar silente que me aturde
com os inquietos rumores da trovoada
a tempestade insiste e não diz nada
apenas ameaça, carregada, rasgar os céus
com uma vaga de verdade
uma onda de luz que lave a Humanidade
em mim, a chuva corre por dentro
água salgada sem lamentos
perfume vago de uma melancolia
que sei, conheço, mas não aceito
anseio o caos e a desordem,
que venha a luz quebrar a a chuva
que, mansamente, me alisa dentro
memórias amarfanhadas
cartas de amor proscritas, inúteis, rasgadas
eu que me abrigo na caverna
e vejo, enfim, nas sombras projetadas,
que tudo é ilusão,
até a chuva que às vezes
nos unia num mesmo fio de água
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