20.4.19
retrato do poeta quando jovem
rosado, maladroit, ascéstico, monacal,
acne na alma, ossos timidamente lassos
e rigidez nos abraços
eis o retrato do poeta quando jovem
na sua captação interior do real, sem ligação
a matéria alguma, apenas ao sentir e respirar
profundamente, o ideal
que só os seus olhos vislumbram,
inspirando estranheza,
pela sua adolescência maduramente só
nada no seu mundo se decide
com o brilho das ideias e desenhos do sentir
porque nada lhe responde na mesma intensidade
nem o amor, nem a mulher, nem a verdade
eis que o poeta, quando jovem, ascende à posição
de deus de si mesmo
nada é tão perfeito como a paleta do sol
ou a fuga de verdes na paisagem
um som pode transportar o poeta
para galáxias inesperadas
mas o seu tempo é apenas um lugar sentado
de onde a poesia rega e inflama o mundo,
o amor, o desejo e o limiar do presente adiado
é impossível ser poeta assim, na madura idade -
mais tarde o mundo mata len.ta.men,te o sentir poético
preenche de amargura a distância entre o havido e o sonhado
e nunca a matéria lhe dará a mesma (talvez)
(nunca experienciada) felicidade,
porque o amor "melhor é vivê-lo que sonhá-lo"
e felizes são os seres que o vivem sem o ter sonhado
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