9.4.19

cultura de borboletas


por quanto tempo habita a borboleta no casulo,
esse âmago onde a revelação se faz
como numa antiga câmara escura?

toda a metamorfose requer lugar

há a superfície das águas que absorvem o olhar
há o obscuro silêncio a render o real
e há a vontade de ver por outros olhos
(o que outros veem mal)

por decreto o casulo é o lugar que guardamos
para que nos habitem dentro
por quanto queremos

e, à imagem do que somos,
no centro do ser vive outra voz
que só nós temos:

é isso o amor

é como tocar com os olhos
naquilo que não é real, tal como a cor,
tal como o movimento e o ar
tal como o adejar das asas
da breve borboleta -
- o laço da morte a vai levar...

só os loucos ou os poetas se dedicam
ao raro cultivo das borboletas:

é um tear sereno e solitário
o tempo apenas faz a teia
e as palavras são seda e sudário
são o sopro que dá vida ao ser

por quanto tempo,
por quantas vezes o ouvimos
quantas imagens guardamos dele
desse ser que nos habita e nos estilhaça
deixando apenas a seda gasta e preta
enquanto de nós se solta, em voo de borboleta?

Sem comentários:

Enviar um comentário

Deixa aqui um lírio

Recentemente...

Assersões

Uma onda é a resposta a outra, como um eco é a resposta a outro A atração, dois ecos que se encontram e se unem no mesmo som E o amor? Ah, o...

Mensagens populares neste blogue