9.4.19

Ser nuvem e chover


As noites na cidade são banais
Não ouço o mistério das aves
Nem sinto o que pode sentir
Quem ouve passos na estrada

O silêncio consome o corpo
Tudo se resume a nada
Em nada me comprimo
Deixo-me enrolar na onda
E o mar vem-me embalar

O nada ínfimo que sou rola
Entre a areia e o mar

Sou tão pouco e tão nada
Que a sensação de assim ser
Me seduz - o apagamento -
A catarse de não existir
A harmonia de harpas
Ao longe no entardecer

Desaparecer no centro da nuvem
Ou ser a nuvem e chover
Esvair qualquer matéria
Na substância única
Do não ser

Deixo-me ir 
Entre a areia e o mar
O mar, a areia e o luar
Tudo que fui flui para partir

Sou apenas ar, raríssimo ar
E subi, subi, longe, longe de mim
Sem ter de chegar


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