20.5.19
Dante
não sei como descoser a porta
que se armou com o vendaval
o silêncio cerrou-a por fora,
deixando-me a voz triste do mar
e dos teus olhos a carvão, o traço moço
e agora
vive o verão no corpo e a noite é fada
fica a meu lado - e assim me fala -
neste poema tardio, quase a rasar agosto
como noiva por noivar, ela é um astro
e tu apenas o ocaso do meu corpo
mas nestas profundíssimas noites
não leio mãos nem leio rostos
coso-me com uma linha de silêncio
e apenas sei ouvir o que ouço
sei que bebo a ilusão ao deitar
e acho o amor pela manhã
mas isso é o meu modo de respirar
importa muito a ninguém, mas não faz mal
é como se uma ave cantasse para dentro
sem ela mesma se ouvir e tudo ficasse igual
é assim que sou
quero lá saber dos fundos botões
que te prendem a ti mesmo
isso importa tanto para o que sou
como essa mesma ave entrar em combustão
e arder todo o universo, num lapso
sem sequer se ouvir um grito de perdão
pode ficar uma lança a rasgar a carne
e um débil sangue a brotar das fontes
mas eu serei ainda assim a resistente
a última a fechar o lugar de Dante
onde Beatriz, em desespero,
quis resgatar o amado-amante
Subscrever:
Enviar feedback (Atom)
Recentemente...
Assersões
Uma onda é a resposta a outra, como um eco é a resposta a outro A atração, dois ecos que se encontram e se unem no mesmo som E o amor? Ah, o...
Mensagens populares neste blogue
-
Entre montanhas planeio voos e plano sobretudo o lugar da ilha A vida existe mesmo que a não queira. Mesmo que a chame e a submeta aos pés d...
-
Quando meto a marcha à ré, nunca sei se devo olhar para trás se para a frente. A medição das distâncias, muitas vezes, não depende dos olhos...
-
Nos teus olhos o brilho que nunca vi nos meus. Imagino que foi tudo um sonho longo que só sonhei eu E lanço-te ao rio numa folha forte na j...
Sem comentários:
Enviar um comentário
Deixa aqui um lírio