21.5.19

Cáustica


Cáustica. Cal viva sobre um mundo conhecido bem de mais.

Cauterizo feridas que não sinto, quando (des)prendidamente arrasto vidas que não vivi.

Não sei de onde me veio este sarcasmo, que é ao mesmo tempo a crença de que nada mudará no mundo, a não ser o que tiver nas minhas mãos mudar e nas minhas mãos nada muda.

E, nessas mesmas mãos cheias de vincos, baças de giz, só cabe a solidão de empurrar sozinha a pedra, pelo montante da colina ou de ser levada por ela, colina abaixo. Em todo o caso sozinha.

Ninguém ama mais a vida do que aqueles que a rasgam no nevoeiro, mesmo sendo incapazes de produzir prodígios, tais os sulcos da caminhada.

Trabalho e inspiro mais trabalho. E é tudo.
Estou cáustica, mas não conforme ao que sou.
(...)

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