Se eu disser em qualquer língua
que a tarde surgia às vezes
vestida de vozes e poemas,
digo a verdade ou aponto um sonho ocasional que veio ao dia?
Será como se quisesse decantar
a saudade,
um fumo que se evapora
e nunca sai do corpo. Será que evoco
tempestades, onde só houve vento?
Se eu disser da luz ou da penumbra,
ou citar o que dizia a bruma
entre duas espadas e dois golpes
levantarei o nevoeiro ou estou apenas
a vestir a malha de ter sido?
E se não disser, condeno à morte
o que morreu, desenterro os vivos
e passo a ser menos eu?
Que sou eu? Uma produção livre
de mim mesma, sintetizada ao
microscópio, com demasiados anexos
substâncias e aditivos? Quem me escreve a história, se eu declinar descrever-me?
Qual a função de ser o que poderia ter sido, se ainda estou a escrever o que sou, aqui e agora e poderei ser ali ou algures?
Por fim, que lugar haverá para a saudade
se a vida se regista no presente? Importa o que foi, na história de alguém? E o que não foi, qual o órgão do corpo que faz a compostagem? Como chorar a morte
de quem não morreu?
Como fecharei a porta que não se abriu?
Como serei eu?
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