partilho das rendas das minhas avós e dos bordados da minha mãe
as leves comisuras dos seus lábios quando sorriam para a vida, dura embora
e ingrata, agindo sempre por dever nunca em conformidade com qualquer
outra coisa exterior a si mesmas, mulheres de lúcida devoção à vida
apesar de tudo
sou parte de um tecido maior lavrado por gerações de cristãos novos e novos
explorados, em busca de alguma justiça que nem o véu da ignorância de Rawls conseguiu
levar à posição original aqueles que acham que a igualdade é coisa de atalhos sem caminho,
uma ruralidade de um verão mais quente do que o normal
a igualdade está tão fora de moda como os pirolitos da minha infância, agora é mais
o direito à livre iniciativa e ao enriquecimento - sempre houve homens mais inteligentes
que outros no cálculo mental de perdas e ganhos. A igualdade de oportunidades é mais
uma coisa documental quando as oportunidades são portas fechadas e ponto final.
sei que há em mim confluências e transgressões que não explico, entre a mercadoria social
que me impingem e eu compro e o desejo de gritar contra a hipocrisia dos ismos
dos europeísmos, dos liberalismos, dos corrutos ismos que nos poluem. Mas ninguém grita,
todos se refletem a si mesmos num ecrã para mostrar que não estão de fora. Tiveram a sua
igualdade de oportunidade com direito a muitos seguidores, mais do que Cristo jamais teve
com os povos do deserto
eu não sei mais do que as coisas que vejo e partilho de outros ismos, não dos populismos,
certamente, nem saudosismos, mas de muito ceticismo, agora sem p, quando vejo que o mundo
me mudou e eu me calei. calei-me por pudor da alienação que nos tomou a todos, com os
velhos deuses da terra, um a um, sem sangue, nem resistência, nem guerra, suprimidos e sem dor
mas agora, vejo que matam definitivamente o amor, a raiz da terra e do devir. Ama-se o lucro e o
que serve para servir e não para ser amado. Vénus, na boca de Camões, já o sabia, quando levava aos homens justos ilhas e recompensas. Para que foram tão rudes as sementes que plantaram, as laçadas que deram e as costuras e remendos e os naufrágios que, afinal, deixaram entrar os escorpiões marinhos de fato e inteligência cerebral
o Estado foi elevado ao único deus universal, por gente que o ocupa e o ministra, mas que, na verdade, enxovalha o enxoval e o conspurca, fende as rendas, rasa marés e rouba vidas e camisas. A pureza da vida mais pura que queremos é uma mancha de petróleo sobre estatísticas de interesses e políticas que roubam aos velhos a velhice, enquanto os novos se escapam para o jogo mais próximo, onde são heróis e caminham, por vezes felizes
não caredito que se conheça dor tamanha a esta de deixar um mundo tão imperfeito, depois de tantos humanistas, pensadores e profetas nos ensinarem que agir por amor e pelo bem-estar geral é a única coisa que à humanidade, se quer existir, interessa.
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