14.6.19
finitude
os teus passos eram
indefinidamente finitos, no espaço
onde os muros da casa se encostam
ao tempo
e onde os gatos se sentam
entre as heras, para não serem vistos
os gatos não esperam senão os pássaros
os gatos e os pássaros são felizes, porque sempre se encontram mutuamente
e eu podia ser feliz com um som
como a fuga de um pássaro, coisa tão irrelevante
no espaço - podia ser feliz com tudo -
menos com o som dos teus passos
à partida
não sei porque te ias, onde partias, mas os gatos sabiam
tu já sorrias para um lugar distante
o meu coração requeria
um som mais alto e mais distinto do que a ida
com toda uma primavera de rosas e jacintos à chegada
talvez um som que acendesse o universo
na sombra discreta do teu sorriso
algo que detivesse o declínio da emoção
dos teus passos quando ias
mas a tua ida é tão comum no universo
como o voo do gato para o pássaro
que sempre o perde no encalço
e à força de ires,
os teus passos foram apagados pelas folhas, pelos gatos, pelas chuvas e nos meus olhos gastos
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