É fim de tarde e o campo invade-me o corpo de frescura. Ponho os dedos na mesa onde repousa uma cerveja preta.
Não sei se vem da bebida,
se da tarde,
se da saudade das sardinheiras, que antes me cresciam nos vasos da varanda,
quis percorrer estas linhas para aceder ao infinito dos dias quotidianos,
se isso existe.
As minhas gatas olham-me a tentar compreender. Admiram os pombos do fim do dia e ouvem os cães urbanos que adubam as ervas daninhas por onde passam.
Todos os bichos agem conscientes da cercania da noite. Respeitosos.
Gosto dos animais. São verdadeiros.
Agrada-me beber cerveja a pensar
No sentido da vida animal.
Os bichos são fiéis, fiáveis,
Dóceis, inocentes,
Pacíficos
Tudo o que o homem
Não é. Mesmo aqueles que se sentam
Ao fim do dia com uma cerveja.
São calculistas. Pensam já na melhor
Maneira de despachar os pombos,
De denunciar os donos dos cães
De lixar alguém no dia seguinte.
Os animais dão-me
Paz. Acalmam-me. O homem é intrépido
E inconstante. Não se contenta com um fim de tarde de gatos, pombos e cerveja.
Os homens arrancam a própria pele e, se for preciso, alcoolizam o coração. Os homens adubam a natureza com matéria mais ofensiva que a do cão.
23.7.19
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