hoje sou muitos. a manicura que me esfrega os pés, enquanto pressiono as teclas do telemóvel, como se estivesse a comunicar-me com o além cibernético que me lê, porque mais ninguém espreita pela janela e eu também não sei ter o encanto dos outros
que são amados por qualquer frase que lhes saia. Hoje sou outros.
O africano que desce a calçada com uma mala sobre rodas, a cheirar a liberdade, ou a despedir-se dela. a mulher que ampara a filha, o passador da esquina, que talvez não passe mais do que a sua própria miséria, o vizinho dos cães, levado, como quem vai por ir e aqui, as cabeleireiras à volta das cabeças, enquanto a tarde vai passando lenta. Hoje sou outros e aqui afirmo que ser os outros é não ser eu, é acertar outros mundos com o meu. E isso faz-me tão imensamente vulgar e vária como eles. E ainda fica por provar se a vulgaridade não estará em mim, nesta incapacidade de ser eu, embora os meus pés massajados me encham de autenticidade.
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