I
Na Hacienda, os quartos têm nome de flores.
Sou a senhora Flor de Lótus.
Ao meu lado, está o senhor Orquídea, um idoso que vagueia pelo pátio como se tivesse perdido algo.
No quarto Rosa, ficam umas senhoras muito discretas, já pouco róseas. Senhora e acompanhante, ou talvez irmãs?
Mas os meus hóspedes preferidos são o casal Mimosa, muito unidos e sintonizados, como se até no próprio respirar se entendessem. Envelhecer em conjunto deve ser uma experiência única. Sem rebeldia de um ou de outro. Não sei se conseguiria.
Hoje chegaram uns jovens cabeludos, daqueles que são totalmente verdes por dentro e por fora. Fiquei curiosa relativamente aos quartos que iriam ocupar. Hera? Petúnia?
Uma família de quatro, que presumo esteja no quarto Amapoula, tem a criança mais irritante que conheci. Caprichoso, chantagista, mimado e consentido. Que faz aqui uma criança neste cemitério de flores?
Mesmo assim, há muita poesia na fazenda. Parece o México daqueles filmes do zorro. Quase se imagina o Antony Hopkins a saltar da varanda, de espada em riste. As janelas têm aqueles gradeamentos curvos que impediam as senhoritas de serem beijadas pelos sedutores, sob pena de serem vistas a debruçar-se para o exterior.
O ferro prolifera em tudo, lembrando a abundância de minas e de talentos da arte do fogo. Cada arabesco conta uma história. Os quadros aludem à caça, aos cavalos, aos touros. Madeira nos tetos, cretones antigos nas camas e cortinados. Janelas mouriscas por todo o lado. Em volta, extensa planície de trigo ceifado. Trabalho feito. Sugestão de silêncio e siesta.
Não há sinais dos antigos donos. Ninguém sabe nada. Porém, eles viveram na Hacienda. Ainda cá estão em pequenos pormenores. A quantos dias de verão e tédio, como este, terão sobrevivido, no torreão sul, a contemplar o trigo ceifado e a marisma ao longe?
Dançariam flamenco à noite, no pátio, com os criados? E as flores que as mulheres da casa usavam nos cabelos, seriam as mesmas das portas atuais?
I I
Neste cenário de pura contemplação, um paraíso perdido no tempo, com todas as flores tão discretas e onde só destoava o menino do quarto Amapoula, eis que a minha história conhece uma reviravolta terrível.
Os manes da casa, os antigos senhores severos e suas filhas comedidas, já para não falar na antiga e nova criadagem, conheceram outros sons mais fortes que as tacadas de flamenco. Tudo isto porque chegou um grupo de cinco portugueses que imundaram de carcajadas e vozes altissonantes o silêncio das fontes.
O ambiente agora é só deles, já não é permitido a cada um viver de acordo com a sua flor, urdindo a sua trama de vida, o seu quotidiano.
Parece que se abriu o comboio de Caxias e saiu de lá um grupo com geladeiras, marmitas, testosterona e histeria.
Sem mais comentários, talvez seja melhor voltar para o quarto Flor de Lótus.
III
Afinal são nove. Agora que venho ao meu tinto de Verano, no pátio, vejo-os e ouço-os a sobreporem-se à música.
As pessoas quando estão acompanhadas desenvolvem comportamentos grupais sem sequer se darem conta disso. Talvez eu também risse com a mesma exuberância e falasse ao mesmo tempo dos outros. Ou será que teria constrangido todo o grupo a respeitar o espaço e os outros hóspedes?
O senhor Lilo também está só com um livro. Percebo que evita olhá-los. É inglês e fleumático, sabe disfarçar, mas tem um ar pacífico. Agora mesmo se refugiou na biblioteca.
Parecem evangelistas ou evangélicos, ou algo assim. Chegam mais três. Será uma excursão, um congresso dos músicos ou gente que vem ao casamento de um primo bem sucedido por estas terras? Ouço várias vezes a palavra Barreiro. E o tempo custa a passar até à hora do jantar com esta elevada exposição à realidade.
Felizmente, amanhã deixo a torre sul e o
flor de lótus conhecerá outro hóspede.
Conclusão a tirar desta viagem. Alguns portugueses sabem estragar ambientes.
Outra: o tinto de Verano tem a cor das romãs temporãs. E eu sou uma idiota por querer o mundo à minha medida.
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