Gostava de lhe chamar querido, noutra existência, sem pedras na calçada, daquelas que resvalam para a ironia. Meu querido, murmurava, e essa era a melhor forma de encher o peito de ternura.
Nunca soube se dentro dele a palavra era acendalha de alguma coisa. Gostaria de saber se a usava nas noites solitárias dos lençóis enxovalhados da insónia. Minha querida.
Se ele um dia se lembrasse de lhe escrever uma carta antiquada, num envelope amarrotado pela indecisão, será que alguma coisa no sabor do selo, ou da inclinação da letra, acenderia essa chama de se sentir querida?
Fechou a noite e a memória com a mesma precisão. Mas ao cair na escuridão, ainda o sopro do sono não soava e já nos sonhos dela alguém lhe chamava querida no fundo da noite anónima. Era uma sombra só e severamente fechada na penumbra. Meu querido, murmurou, enquanto a sombra, furtiva, se desvanecia.
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