Escrever o aqui e o agora é cometer uma fraude. Não sei se sinto agora o que vou dizer a seguir ou se o que senti é ainda o que digo depois. O intervalo de tempo entre o sentimento e a sua verbalização é um salto no vazio. Depois de preenchido pela fala, o sentimento já não é nosso. Ou já se perdeu entre as letras e os efeitos estilísticos.
Mas numa carta de amor não há descrição de sentimentos, nem os srntimentos são expressão. A carta é o próprio sentimento. É ela o amor. A ternura. O abraço. A saudade.
É ela o corpo que se estreita, os olhos que brilham rendidos, a carta é o sorriso que assinas com a caligrafia terna e o rubor da ousadia. Meu amado, a noite hoje é serena e terna. Amor, faltas-me na alma.
Meu querido, a tua voz acalma-me.
A carta é segredada ao ouvido. Sem o ruído da fala.
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