A milésima história não era contada
E já o tédio cobria a bela tenda,
Cercada dos mais ricos brocados
tapetes, velas e ânforas de água
Nas imediações do rei, ela tirava a capa de narradora e oferecia o seu corpo de mulher. Sempre nas imediações de alguma coisa, ele absorvia a essência do corpo depois de lhe beber as histórias.
Doce como uma tâmara, dócil e dedicada.
Sherazade, com a morte sempre adiada.
Mas até um rei sabe quando parar.
Matá-la-ia em breve, antes de começar a doer-lhe o coração.
Matá-la-ia todas as noites até esquecer
que uma mulher pode ser a casa, o templo, a mesa onde se bebe o chá, o mistério e o amor. Até a palavra.
Tinha de matá-la antes de lhe sentir a falta dentro e fora, como sentia a falta dos coxins e das taças de uvas e de amoras.
Matou-a deliciosamente, como quem dá enfim um fim a todas as histórias, para
ficar inerte a sentir a presença dela, a buscar o espaço dele.
Sherazade fora. Silenciosamente fora, a tempo do ponto final.
Mas o rei achou que assim conseguia amá-la sem que ela viesse a ser o seu mal.
Sherazade, a narradora, já não tem corpo, nem substância, sequer.
Ela que tinha sido antes de tudo uma mulher.
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