não sei quantas vezes perdi o rio que me desenhaste em tempos. ouço a água a correr para dentro
e sinto-me um açude perdido no meio de um campo.
é possível que me recordes como um pássaro bizarro que passou pelos teus dias, numa paisagem embebida
em águarelas de péssima qualidade.
choveu tanto sobre mim que me desvaneci de cor e corpo. nada me dá o direito de te determinar meu, mas aqui
ninguém nos ouve, porque são todos invidentes da evidência do amor, onde quer que a tenham vivido ou visto.
não me importo que me deixes ir rio abaixo, como a cesta de David, rei de Israel. fui ungida pelo nada absoluto
e nele me deixarei perder, entre nenúfares secos, do fim da estação. não é muito cómodo ser um símbolo, uma ideia
em transfusão de algo para o vazio.
mas antes que me embranqueça a voz hei-de chamar-te meu amor e encher o peito de ilusão. já passámos a fase
do café rente ao coração e dos olhos luzindo na escuridão como pirilampos ou loucos candeeiros de rua. tive pena.
agora chamo-te meu amor e tu condescendes entre o divertido e o alarmado. mas, sabes, foi sempre coerente esta minha incoerência de te buscar em todos os seres. no fim foste sempre tu em todos eles, pobres substitutos do amor ideal.
tenho peixes nos bolsos e limos nos cabelos, conchas pendentes dos ombros e muitos sonhos. de onde venho é sempre inverno. com a minha voz encarcerada, porque o tempo é sempre de antanho, aqui te deixo e te deponho, as conchas azuis com que se fecham os meus dias, meu amor.
podemos morrer de dor, mas não de sonhos.
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