5.6.20
cauterização
ainda agora o vento se confundia com a passagem do tempo e, agora, de repente,
descubro que é a passagem do tempo que se confunde contigo
enquanto tu ergues um busto de mármore, eternamente jovem, de uma brancura exemplar
eu desço, devagar, de nenhum pedestal,
estatueta de quem fui, inventando encantos, que já perdi, para te seduzir
tu és o corpo. eu sou a alma. entre nós não há tempo, porque eu perdi todas as horas e minutos e mais não tenho
sou a mulher que se fez estátua, tu a estátua que se fez homem e eu amo-te com a impossível febre dos ossos
como se fosse moça nos braços fortes do perfeito moço
mas a perfeição é um lugar solitário por onde passa o vento, a areia, o lume e o esquecimento
não te lembrarás de mim no próximo outono e eu lembrar-te-ei belo e ebúrneo
a vida inteira - como o corpo, único, que não posso ter porque me cauterizou o impiedoso tempo
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