17.6.20

Não subas a montanha até ao cume

Não posso subir a montanha até ao cume.

Lá em cima aspiramos todo o pó perto das estrelas, toda a massa de ar que não se amassou no chão. Aspiramos a tudo, a ser tudo, a ter tudo. Se chegamos lá acima,  tão alto o tempo, tão alta a vida, tão perto os deuses, queremos tudo.

No cimo da montanha vemos tudo tão possível que as impossibilidades se esbatem. Perigosamente perto do precipício, acenei-te como se acena a um comboio atrasado, chamei-te, sorri para ti lá do cimo. Atirei um lenço, um beijo azul, um brinco de flores.

Mas  caí, desci profundamente até ao chão, onde a gravidade piedosamente me apanhou.  Não tu.

É perigoso ficar tão perto de te alcançar ao longe, porque depois as palavras  são ossos partidos e tu não estás na multidão.

Então, fecho os poemas, ato-os num molho e ponho-os a secar no coração para perderem o viço dos lugares altos, assim como montanhas, os picos altíssimos do amor.

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