Não posso subir a montanha até ao cume.
Lá em cima aspiramos todo o pó perto das estrelas, toda a massa de ar que não se amassou no chão. Aspiramos a tudo, a ser tudo, a ter tudo. Se chegamos lá acima, tão alto o tempo, tão alta a vida, tão perto os deuses, queremos tudo.
No cimo da montanha vemos tudo tão possível que as impossibilidades se esbatem. Perigosamente perto do precipício, acenei-te como se acena a um comboio atrasado, chamei-te, sorri para ti lá do cimo. Atirei um lenço, um beijo azul, um brinco de flores.
Mas caí, desci profundamente até ao chão, onde a gravidade piedosamente me apanhou. Não tu.
É perigoso ficar tão perto de te alcançar ao longe, porque depois as palavras são ossos partidos e tu não estás na multidão.
Então, fecho os poemas, ato-os num molho e ponho-os a secar no coração para perderem o viço dos lugares altos, assim como montanhas, os picos altíssimos do amor.
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