Sou rainha coroada pela vida, fada designada por ti, entre terras de lobos vivi.
Tenho anéis de minério cravados nos dedos, de uma vida antiga que vivi, serva na terra de Judá, pastora por sete anos e concubina mais três.
Conheci a mourama e fui escrava de um vizir, andei três anos perdida em mil e uma noites sem ti.
Desembarquei em terras santas num Pentecostes qualquer e rezei mil avé-marias para te encontrar outra vez.
Mandei buscar o teu corpo por terras nobres e vis.
Mas o teu corpo não veio, nem viria meretriz. Carpi a terra negra, aos maus ofícios fugi, peregrina entre lobos, clamei sempre por ti.
Chorei a tua inexistência, pensei que um jinn do deserto me quisera enlouquecer, fechei portadas e ameias e foi assim que parti.
Mas, qual dama-pé-de-cabra, um dia enfim te achei e, com olhos ímpios e profanos logo de ti me logrei, breves instantes de partir.
Hoje sou feita de areia, porque me voltei para trás, na fuga à ira do senhor. Se calhar endoudeci.
Agora, se te busco, só com
bela alvenaria, palavras gravadas de amor, cravadas no flanco de aço, nos vales de Ana de Aviz, só com poções de encantar, em olor por aí,
chega a ti o meu amor, mas o
teu não me chega a mim.
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