Regresso a casa, tenho medo de sair de casa, quero voltar para casa. Todos querem. Mulheres pesadas com crianças e sacos atravessam devagar a passadeira como se fosse a última de muitas travessias. O rapaz glovo está com pressa e rasa os transeuntes em ziguezagues perfeitos.
Ponto traço, páro, arranco, travo. A música dos dias normais. O tempo decorre devagar, o ritmo hipnotiza-me. Vou na calçada, absorta, fora dos meus sentidos. Percebo apenas que sou parte da massa humana que trabalha. Somos todos um, o glovo, os transeuntes, as pessoas dentro das latas douradas com rodas e jantes, como gaiolas andantes.
Tenho medo de me dividir aos bocados se sair de casa, diluída na anómima parada. Tenho medo de me fundir com a gente amestrada:
ponto, traço, pára, arranca, trava.
Pessoa com o seu rosto desconfiado e o seu olhar de fachada sentiria tudo como o apagamento da consciência. Ponto, traço, pára, arranca, trava.
"Somos todos um". E não nos disseram nada.
Subscrever:
Enviar feedback (Atom)
Recentemente...
Idos de setembro e não de março
tarde de blues e belas chamas de sol, som e serenidade na pauta do terraço, nos idos de setembro e não de março deixamos o corpo seguir nas ...
Mensagens populares neste blogue
-
A noite é linho e luz até chegar a madrugada. Apenas estás lá. Não sabes nada. No leito flutuam flores de seda álgidas. Por onde anda a tua ...
-
No meu estendal pesam as dores, pesam os mistérios e algumas roupas velhas molham as flores, Pesos que agora me pesam mais do que já pesaram...
-
Na vida, o único sentido é o amor, o mais fértil dos sentidos é mesmo o amor, desculpa, passei toda a minha vida a dizer-te que só amando mo...
Sem comentários:
Enviar um comentário
Deixa aqui um lírio