1.9.20

Somos todos um

Regresso a casa, tenho medo de sair de casa, quero voltar para casa. Todos querem. Mulheres pesadas com crianças e sacos atravessam devagar a passadeira como se fosse a última de muitas travessias. O rapaz glovo está com pressa e rasa os transeuntes em ziguezagues perfeitos.

Ponto traço, páro, arranco, travo. A música dos dias normais. O tempo decorre devagar, o ritmo hipnotiza-me. Vou na calçada, absorta, fora dos meus sentidos. Percebo apenas que sou parte da massa humana que trabalha. Somos todos um, o glovo, os transeuntes, as pessoas dentro das latas douradas com rodas e jantes, como gaiolas andantes.

Tenho medo de me dividir aos bocados se sair de casa, diluída na anómima parada. Tenho medo de me fundir com a gente amestrada:
ponto, traço, pára, arranca, trava.

Pessoa com o seu rosto desconfiado e o seu olhar de fachada sentiria tudo como o apagamento da consciência. Ponto, traço, pára, arranca, trava.
"Somos todos um". E não nos disseram nada.


Sem comentários:

Enviar um comentário

Deixa aqui um lírio

Recentemente...

Dia dos (Des)namorados

Não sei que diga nestes dias especiais. Não há dias felizes com marcação prévia como no cabeleireiro. Que sejam felizes os apaixonados. Os q...

Mensagens populares neste blogue