Todas as narrativas seguem um rio e o rio tem acidentes, a água faz peripécias no ar, faz remoinhos, leva-nos ao fundo, voltamos ao cima e somos submersos narradores mudos do momento vivido, somos personagens líquidas de um destino, por vezes vemo-nos de fora, sou mesmo eu que estou assim crescendo quase um peixe, quase liso, sou mesmo eu que estou assim caindo calidamente no rio, lírios limpos na corrente, quando essa narrativa quase infinita atravessa lagos calmíssimos, pégos de ternura, somos felizes nessas águas, banhamo-nos com amor nelas, penduramo-nos na realidade que as águas mostram, as árvores do outro lado, as árvores que tremem na corrente, debruçamo-nos nelas, caímos nesse reflexo, narcisos de amor, enquanto o rio nos rola mas depois não temos fundo, a água não pára, não pára nunca vivemos, o tempo vive-nos, na foz morremos.
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