21.3.21

O peixe-pato

Nunca vi um peixe-pato, a não ser nas referências literárias de Sena, nas suas novas andanças do demónio. Mas gosto de imaginar que o conheço e, porque o li nas águas em movimentos sensuais, imagino que o senti no corpo, nos mesmos movimentos leves de um sonho. Não preciso de ter visto para sentir, nem de sentir por ter visto. Tudo que teço é meu, único e inimaginável noutra mente qualquer. Essa é a nossa maravilhosa e distinta identidade. 

Tudo o que vemos nos outros é também único. Vemos mais com o coração, menos com os sentidos. Uma voz é um conjunto de vibrações das cordas que temos na epiglote. Mas o seu impacto, intensidade e modulação dizem-nos mais do que sons. Dizem sentimentos, produzem relações de sentido. O nosso coração conhece a inflexão da dor e da alegria. Sabe ler na voz dos outros aquilo que a sua própria voz diz. Por vezes falha, idealiza, indentifica-se por empatia.

Também acontece o mesmo com as pessoas que lemos. A voz também nos guia para uma imagem idealizada. Construímos o que nos falta na nossa construção. Por isso ler é tão importante.

No amor também projetamos o que não temos e engrandecemos o outro. Se um dia o reduzimos à sua mediania podemos desamar subitamente.

Se amamos alguém pela sua vertente sensível, pelo que nos mostra de si, vivemos vendados e veneramos a superioridade do pensamento. A construção intelectual é complexa, dificilmente cai. Tendencialmente, aumenta até ser um símbolo elevado, um lugar preenchido com palavras que o real nos ausenta. Transpomo-nos para um ser que é metade de nós, porque o modelámos nós. Iludimos assim a solidão. 

Mas, será que conhecemos esse ser? Até que ponto nos interceptamos na conjunção da pertença? 

(Jogo, irmão, partilha. Palavras que me ocorrem de repente). 

O peixe-pato que me aflora a pele e o pensamento será o mesmo que Sena desenhou nas suas letras?


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