19.4.21

Fizeste-o bem

Fizeste bem. Fomos descontinuados, como uma linha de sofás ou a funcionalidade inútil de uma aplicação

Fizeste bem. Éramos uma linha antiga, sem sucesso nas vendas. O nosso funcionamento obsoleto de décadas não resistiu à modernidade

Fizeste o melhor que pudeste e não levo a mal. O teu coração ficou a pendular na sala, sem corda, até parar

Assisti ao golpe sem poder inverter o sentido da faca. Morremos sem saber. Li nos teus olhos a ira das vinhas na geada. Ouvi na tua voz as badaladas da meia-noite e ainda era, para mim, tanto dia

Fizeste bem, mas não me atingiste a mim. Mataste o que brotaria eternamente, e eu fiquei, guardiã do efémero, entretida no mesmo gesto em que me surpreendeste. O tear parou na surpresa das mãos vazias e eu sou, enfim, a tela triste do quadro absurdo

Fizeste bem o mal que quiseste fazer, enquanto eu fazia todo o bem que podia fazer. O amor, meu triste amor, tem destas voltas, volta e meia há réplicas até a terra parar de tremer



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