11.9.26

Metamorfoses

O que acontece quando percebemos que nada nos interessa, nem aquilo que dantes nos movia? Gostava de saber o que vem depois da apatia, sabendo embora que esta necessidade de conhecimento tem um fim meramente especulativo. Um estádio sucede a outro na rampa da idade, mas não é só a idade a determinar a indiferença relativamente a tudo em geral. Em qualquer idade pode dar-nos um enjoo geral da vida, uma sensação de inutilidade das mãos, dos pés, do pensamento.

Compreendo agora Gregor, o jovem protagonista da Metamorfose de Kafka. Nunca entendi a fantasia do autor. Uma pessoa vê-se transformada em inseto e a sua consciência intacta vive no corpo desse animal. Perde toda a sua mobilidade socual, a sua utilidade como provedor do sustento da família. 

Que lhe resta que o possa interessar no mundo? Não pode fazer nada. Perdeu a sua anima, o seu objetivo de vida. Não era uma vida feliz, limitava-se a trabalhar duramente, mas Gregor era estimado pela sua produtividade. Naturalmente, perdida até essa liberdade de se mover, de sofrer e de se validar afetiva e socialmente, Gregor perdeu o intetesse por tudo o mais.

Parece-me que vivemos todos uma via-sacra de mudanças que nos arrancam emoções, sentimentos e até crenças. Não chamaria depressão a esse processo. Acho, simplesmente, que o mundo deixou de nos surpreender.  Já vimos tudo, vivemos muito, adquirimos uma certa fobia social por via da loucura que ataca os homens e pronto.

De um ponto de vista filosófico há uma negação da existência, durante o próprio apogeu da existência, quando perfiguramos o nada no fundo dos nossos passos. Como Gregor percebemos a nossa própria inutilidade.


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