Março tem vindo lento. é tudo tão simples e tão calado. a cidade ensopa-se de escuridão, dias e dias a fio de silêncio e só as árvores crescem por dentro e mostram sorrisos verdes nos corações. húmidos os dias só nos preenchem para as rotinas entrecortadas com lufadas de chuva e de vento. escrevo laboriosamente o lugar que cada dia tem, registo calmamente o que sinto, o que receio, o que já não sei se anseio. escolhi recolher-me e deixei a chave onde mais ninguém a visse. comunico, espero. aceito, recuso, desanimo. tem havido demasiada chuva, demasiada escuridão, alguns laivos de sol. custa-me a ver claro no ar da cidade. é cada vez mais o tempo da mistificação, um nevoeiro que escorre das árvores como vapor, como mágoa de não sei o quê. o mundo que escolhi partilhar parece de repente despovoado, como se o outro tivesse de repente uma face desconhecida. assisto a tudo com a vaga impressão de ter criado o caos e a redenção. não é possível regressar, mas também não é possível chegar. pelo meio fica o lamento do vento, a estrada de vidro, o esteio da solidão que está semeado nas palavras. ouço-te. mas não mereço palavras duras. não são para mim, por certo. eu e o tédio convivemos há anos demais para lhe achar paliativo óbvio. noutros passos, ou noutras vozes. o que dou é porque ouço e sou ouvida. a paz agora é tudo que me é preciso. e contigo, sem pressa, como quando íamos pela beira do rio e eu era Lídia.
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