estamos a chegar ao meio de março e os sentidos trazem-nos sinais. todos os anos houve esta marca que corta a Inverno em duas metades, trazendo a aragem cálida, discretamente azul do solstício. e foi neste eixo do tempo que nos reconhecemos. a descoberta da Primavera trouxe o reconhecimento do outro, como parte integrante da ordem da natureza e do universo. costumávamos ser os primeiros, eu e tu, a vê-la chegar ao fim da tarde, no voo mais demorado dos dias, no odor a erva espalhado no ar. senti-a hoje, pela primeira vez este ano. foi rápido e discreto, o golpe de sol e brisa e odor sentido nos jardins da cidade. parei com os olhos inundados de sol e a cidade sorria, cativada, enquanto as aves, minhas cúmplices, rasavam nas folhas das árvores. foi um momento de vida. é tão bonito o mundo para além do meu quarto. consigo sentir a realidade das coisas e a realidade é o meu mundo, como o sangue é o lugar que me prende à vida. no quarto sou um corpo que encontra a sua própria morte para encontrar a existência alternativa, sem pés, nem braços para agitar os ramos das árvores, ou os pássaros que trazem a Primavera. o amor é um braço de mar que entra pelo tempo, não tem ruído de passos, ou vozes de riso, murmúrios ou lamentos. o amor é uma estado embrionário que às vezes não me toca mais, porque parece não vir da natureza, de um lugar qualquer do mundo, plantado junto à minha boca. é uma ida sem garantia de regresso a um lugar atrás do espelho. e eu gostava tanto quando víamos juntos os primeiros sinais da Primavera. era a meio de março e tu habitavas todos os lugares, mas a tua presença tinha sede nos meus olhos. hoje estás mais dentro, mas tão dentro, que deste lugar onde estás, um de nós já não vê com o outro os botões finos de março e os nós que brotaram nos ramos das amendoeiras. são meros traços dos tempos. e nós dois temos uma história tão funda, que tudo é devir e saudade do que foi, mesmo que depois seja melhor.
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