esta elegia é uma transfusão de liberdade
espanto os grilos, as borboletas feridas
surpresas no recolher da vida
com a minha alegria despenteada
na janela que abro ao luar
sopra nos pulmões a liberdade das aves
o cantar enamorado das cigarras
a vida palpitante dos cavalos
ao fim do dia, alçando as crinas
uma curva apertada e o carro ginga
o ar entra em lufadas de frescura
e a lua sorridente é a minha cúmplice
nesta doce loucura de
uma estrada sem destino
onde posso exaurir sem ser ouvida
os gritos pela morte pontual do sol
há mortes assim não pressentidas...
este enamoramento é uma casa habitada
a natureza livre do amor, hoje a lua
amanhã talvez fascínio só solar
mastigo um a um todos os dias do exílio
liberto-me das roupas e dos pudores
e danço nua na clareira embriagada de luar
porque a noite esconde a voz dos deuses
na concha ambarina de querer amar
como se cada novo amor trouxesse
inscritos na retina todos os segredos
dum universo à beira de explodir
esta elegia é uma transfusão de amor
em seiva transbordante de palavras
que surpresa ao recolher da vida
espreitarem-me os olhos da noite
como tiaras a brilhar no escuro
ser eu a princesa da lua apaixonada
o meu cavaleiro a chegar de madrugada
na mão um falcão inusitado
que soltaremos com os dedos apressados
Ah, profunda noite, feérica esperança!
quero ser bela eternamente e chamar-me criança
quero a noite a inundar-me as veias
este ritmo que dança no meu peito
aberta ao voo de aves encarceradas
voem, voem de mim todas as aranhas
espantadas como as órbitas do medo
que o meu peito é uma clareira vaga
e uma paixão nova me toma os flancos
demoradamente lenta como cada lápide
gravada em línguas de fogo no corpo amante
talvez porque encontrei o caminho de casa
nesta noite a desordem das palavras
sobe-me à garganta toma-me o corpo
solta-se um nome novo e eu sei que o eco
veio de dentro no reverso absoluto
de estar viva e mais uma vez enamorada
da vida que é assim a coisa amada
8.4.11
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