4.4.11


escrevo um tudo nada para dentro, um tudo nada de fora, sem saber se o que digo ganha contornos íntimos, ou se é prosa de salão, feita para brilhar sob o lustro.  queria escrever como quem rasga a prumo a carne e o ventre, como quem se resume numa frase ao precipício, mas o que sinto é uma névoa de marfim, grave nuvem sobre a vista, uma espécie de muro que me priva da minha própria paisagem. e de mim. e no entanto, tu. e sempre tu. há dias em que não te alcanço, deixas de ter corpo, face, olhos e mãos. és uma sensação, ou um momento de espanto. desaguas nos minutos sem prevenires e eu viro a esquina e fico detida sob a sombra. mas também há os dias amplos em que me alcanças com os dedos finos e me tocas delicadamente no olhar. então, parece que sim, que existes e tens forma como o mar, e que, sim, a tua voz é uma possibilidade, tal como o teu andar e o teu sorriso. nesses dias é que o sangue me acode, sem pressa, já no refluir da vida, cada vez mais para dentro, uma ocorrência exacta que contém ainda o sobressalto que dantes tinha.


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