levantou-se, absorveu muito sol pela janela, regou as flores, ajeitou-as no parapeito da janela, fez café, aspirou o aroma, limpou o fogão e o micro-ondas, aspirou a casa, preparou um banho e pôs o almoço ao lume. vestiu-se e, sentindo-se limpa, perfumada e lustral, foi ao banco e depois foi comprar pão. voltou para casa já com menos sol. almoçou, voltou a limpar o fogão, colocou a louça suja na máquina, deliciou-se com o rumor da água e do motor, lavou o chão da cozinha e, entusiasmada com o ar arranjadinho da cozinha, passou para a sala, ajeitou as almofadas, deu conta do pó. olhou em volta, sem coragem para parar. mas pensou nas inúmeras tarefas que a esperavam: o relatório, o malfadado relatório de auto-avaliação. as evidências que tinha de ir procurar para comprovar o seu desempenho, os currículos para reformular, (já tinha passado o prazo) a planificação da peça de teatro da escola, a festa de fim de ano, as sessões da formação sobre o novo programa, a investigação para a tese, o texto que nunca mais avançava, como se minguasse de cada vez que inseria novas tabelas, novas análises. toca o telefone interior da consciência: os mapas, os mapas da administração do prédio, em excel, as contas do mês, tudo por fazer. olhou em redor. faziam trovões assustadores. os relâmpagos, quase simultâneos, iluminavam os cortinados da sala. apeteceu-lhe mergulhar no centro de um livro, lá bem no fundo, numa intriga de flores, ou no peito de um homem carinhoso, e sonhar em ambos os casos com uma fuga para o mar, ou para a vida, sem o caos para combater, sem textos para redigir, ou contas para fazer. doía-lhe a amputação da liberdade. depois começou a chover. a janela cheia de gotas. o quarto abafado. abriu o computador, na frescura da cama, com as roupas frescas de andar por casa e pôs-se a escrever. e começou: levantou-se, absorveu muito sol pela janela, regou as flores, ajeitou-as no parapeito da janela, fez café, aspirou o aroma, limpou o fogão e o micro-ondas, aspirou a casa, preparou um banho e pôs o almoço ao lume... pareceu-lhe que, enfim, chegava a um ponto da sua vida em que mais não fazia do que registar ocorrências, evidências, factos e hipóteses através de uma estranha forma de se mover com gestos de terceira pessoa, voz de terceira pessoa, olhos assustados de pessoa que se vê apagada por riscos, letras, caracteres, dígitos, pleonasmos de si mesma, sem o si. ou com o si sem ela. e sem ele. era o mesmo.
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