nada a registar. talvez a chuva da manhã e o vento da tarde; ou o Sol de ontem e as nuvens de hoje, talvez também o sono que me quebrou os ossos; também a alegria de viver e de estar com outros; a ordem que impus aos papéis, tão desgovernados; o IRS que me devolveu uma pipa de massa (Deus ainda zela pelos pobres, afinal!) e...; fora isso pouco mais a registar, tirando talvez a venda anunciada do meu refúgio (como se fosse possível alguém ocupar por direito o refúgio de outra pessoa). por isso, nada a registar; a não ser talvez o facto de ter adormecido às mãos hábeis da cabeleireira, enquanto me enrolava os cabelos para fazer caracóis. ou de ter passado a tarde a passar roupa a ferro e a cozinhar. fora isso só a noite calada, um avião a passar, o comboio da linha, uma moto, um carro isolado. nada passa aos pares, nada se organiza aos pares na vida urbana. nem os corpos desavindos, desajustados, estranhos, em sonhos separados, ainda tão recentes e já ao leme da vida e a vida encrespada e o mar encapelado. nada anda aos pares no fundo do betão, no canto mais escuro do asfalto. nem as aves se abonam com outra ave sempre ao lado, com a mesma inclinação de ases. as aves formam bandos, são um só. nós na cidade também. vamos todos para o mesmo lado e à mesma hora. voltamos todos no mesmo segmento de tempo e pelo mesmo lugar. somos um só. mas raramente somos dois com o mesmo rumo traçado na palma do dia. e assim se fecha uma noite sem mais história. tu continuas clandestino dos meus olhos e da minha vida. não abriste mais vezes a porta que eu julguei ver aberta. vou perder o meu refúgio, as minhas árvores, o canto dos meus livros. deixa-te ficar por perto. não há refúgio como tu, salpicado de luz e de sombra, uma imagem por preencher, como nas campas de alguém que ainda não morreu e já guardou o seu lugar ao lado de quem já foi. talvez seja apenas na morte que as pessoas verdadeiramente se alongam lado a lado com consciência do outro e partam a dois para o passeio que nunca lhes ocorreu antes fazer. na verdade, fora o pensamento viajante, não se deteve ninguém neste cais. singelo, o dia termina dobrado e cosido em linha de luar com as chispas suaves dos olhos que julgo serem os teus e é verdade, garanto, não aconteceu assim nada de especial hoje. a não ser tu.
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