24.5.11

uma paisagem de um café sem nome e sem pessoas. um homem vem à rua a ver se vê clientes. a rua espreita a ausência de transeuntes, o céu liberto de nuvens e um sol que sela o dia num campo de silêncio. nada auxilia a vida nem a brisa levanta poeira nas narrativas simples dos habitantes do bairro. é uma existência que se adivinha riscada pelo mesmo giz, embora cada um que vai volte com a boca mais ou menos amarga pela rudeza do seu labor ou inactividade. venho para casa  ranspirada e exausta. desde as oito da manhã num contentor à beira da linha de caminho de ferro, um calor sufocante, o barulho do chão, as vozes e os cheiros e a voz que se apaga sem avisar. sede, tenho sede e necessidade absoluta de sair. as janelas do carro abertas em pleno, o vento nos cabelos... eis que chego ao bairro onde nada acontece.  entro, tomo um duche frio e passo a fazer parte dessa massa silenciosa que povoa os edifícios. penso que a rotina se veste por vezes de uma doçura especial. estar entre muros, num quarto fresco, inecessível de sons e de bulício, insuspeita, é quanto preciso neste momento. procuro redigir o maldito texto. construções impessoais. Perlmutter. a língua alemã e a língua russa. pensar como é no português, com a mediação do inglês. o cursor intermetinte e a folha a descer num branco sem fim à vista. sinto-me fresca e protegida. o sono é demasiado para conseguir pensar. fecho as persianas. abraço a escuridão e deixo-me ir. começo a sonhar com padrões de frases. acordo com um rumor qualquer na rua, um carro impaciente, um despertar abrupto. descubro que já sei o que hei-de dizer, pelo menos por onde começar. o corpo humano é uma composição genial. podia ter sonhado contigo, mas dediquei-me sem querer a simplesmente assimilar... a seguir fiz um bolo, lanchei, fiz um coktail de frutas com vodka gelado que bebo agora devagarinho, enquanto te escrevo. sabe-me tudo bem. o mundo pode ser um lugar maravilhoso, depois de se conhecer o inferno. basta não o esquecer. ele estará lá amanhã, pontual, pronto para mim, num longo dia sem tréguas. mas por agora, tudo é fresco, doce e agradável. até o silêncio. por isso é que gosto do meu bairro. por isso é que gosto de cocktails de fruta e de escrever para ti. por isso, e por me saberes (quereres) ler é que gosto de ti. e por outras coisas que não digo. tudo junto constitui o meu quinhão de céu. um céu em ponto grande, com um sorriso desenhado a azul. 

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