19.6.11

apaziguamento

a noite é avassaladora quando me dobra para dentro as palavras e as sensações. fica a vida em suspenso e a aguda rusga dos sentidos. por isso não resisto ao sono, mas também não resisto à vigília. a manhã descobre-me ainda a meio da noite e neste desconcerto não sei o que é o descanso. os meus olhos anseiam por algo fresco e sereno. apaziguamento. o vento ruge pelas frestas da cidade. entre os prédios. fala-me de novos tempos e conta as crenças passadas e os velhos momentos. já o ouvi tantas vezes que lhe conheço as vozes. hoje conta-me que o inverno não está longe. nem a primavera, nem o verão. todas as estações estão perto fechadas num mesmo perfume. a vida. e eu que vagueio entre apeadeiros já não conheço estações. limito-me a colher a medo, com receio que se esgote, cada bocado feliz, cada recado teu, cada olhar que me designes - o tempo é nosso aliado. leva-nos devagar para o mesmo lugar. o apagamento. já sou pouco eu e ainda pouco tu. quando seremos brancos e luminosos sem termos de nos sujeitar às avenidas do vento?  espero pacientemente por esse lugar único entre as rosas e os lírios e as searas. quando já fomos e deixámos de ser. para sempre o apaziguamento dos olhos. as finas feições. tudo que nos fez gente. escreve-me. assim o tempo entardece mais tarde. claramente.

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