a escalada do dia tão lenta, rostos e rostos a desfilarem à minha frente, rugas apreensivas, sorrisos lentos, preocupações emergentes, olhos mais sombrios e depois refeitos. e eu sentada a ver os rostos que paravam e deixavam comigo o traço do seu olhar, o cansaço e os sonos mal dormidos. cansei-me também. uma sala repleta de gente e de sons e risos. tanta gente por ali passou. e eu sentada, no meu labor lento e leve, à espera que o tempo passasse... agora recolho as folhas que o vento deixou espalhadas por aí. não quero fazer mais nada a não ser ler as folhas que o vento deixou espalhadas por aí. estremeci. fui feita do mesmo vento que espalhou as palavras. e fiquei feliz da homenagem, mas não sou mais do que uma mulher cansada que luta para se manter viva, sem cair tão cedo ainda. uma mulher que já quase desistiu de tudo, para tudo recomeçar ainda com mais força. um cansaço muito peculiar. não me ouves os anos crestados na fronte e os traços vincados da idade? sou uma sombra que ainda anda de pé. porque projecta o sol com olhos de crente. é por isso que me distingues. e por isso, por veres o que mais ninguém vê no fundo de umas pupilas vencidas, esta noite abraço-te com muito carinho. e volto ao sonho por dentro. mesmo cercado de picos e de cardos, é um sonho que tem crescido por se criar, do vazio, um bocado de matéria e espaço onde assente.
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