a tarde desenha-se alva de azul até aos limites da vista. entre os ângulos dos prédios, de faixas luminosas e sombras amenas, expandem-se janelas soturnas, algumas fechadas, outras de olhos em repouso. a paz das persianas abatidas é a alma iluminada dos seus corpos de betão. lá dentro há vidas e há lugares onde todos, ou ninguém, se suspende num tempo provavelmente sem paixão. inspecciono o dia procurando situar-me nele. estou na minha janela de frente para o parque, onde o sol deixou laivos de amarelo queimado, um rasto de luz. sinto a calmaria dos lugares onde nada acontece. há um silêncio de ventania levemente sibilante. ouves? um silêncio que sinto crescente nas esquinas do prédio. o pulsar do sangue, alçado nas frontes. estou tão perto do que me interessa que quase sinto o fluir do pensamento. agora mesmo, entre as voltas do trabalho, que a espaços suspendo, apeteceu-me servir, para quebrar a tarde, um sorriso amplo, que dedico ao mundo, ao nosso mundo, assinalando a fragilidade de ambos, assinalando as dúvidas e os medos, os retrocessos e os avanços, porque a mais das vezes não é tarde, é apenas tudo e por vezes é tanto...
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