não saí de casa hoje. gosto de ficar em casa com a roupa fresca e leve larga ao corpo, seda ou linho que sejam sapatos leves e refeições ligeiras. concentração e trabalho. é Domingo eu sei, mas é esta a minha opção. moro no coração do meu tempo, na margem alta do meu bairro, no lugar descansado e insuspeito meu tempo. ao lado de tudo esteve comigo a tua presença, como sempre. fecho os olhos e volto a submergir no fundo dos teus olhos. busco-os sempre. foges-me como sempre me fugiste. estou virada para a noite do parque silencioso. luzes a assinalar as vidas que decorrem paralelas. de ti tenho o sinal forte e erecto do que foi ainda agora a tua voz. falaste-me talvez como nunca antes com a verdade na voz. tomas a fala e eu ouço. ouço com o sal pronto na voz, embebido em água de alegria. tu sabes que há muita coisa que eu não vejo. e ver é crer. mas sempre soube confiar em ti, mesmo quando a cegueira era tão absoluta como a noite de uma mina. agora deixas-me embebida em ternura. não sei dizer se é amor, mas é a configuração que conheço mais próxima dele. a palma da minha mão com o teu destino impresso. havíamos de cotejar o tempo e o espaço, mas ainda não o sabemos aproximar. tenho muito medo da tua inconstância sim. surpreende-me sempre nos momentos em que me entrego mais. fico fria como as corrrentes árticas. mas tu és sol e sempre me consegues amenizar. gostaria de olhar de novo o fundo dos teus olhos. far-te-ei um sinal, quando te falar em silêncio. como as mulheres antigas faziam na corte, sob o olhar atento dos cortesãos: para o descobrires não poderás baixar os teus olhos sob o fogo dos meus. e eu saberei até onde vai a verdade que transportas.
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