23.8.18
A casa
Hoje abri a casa, o piso intermitente, de tantos espaços vazios entre as horas e tu a chegares, como sempre chegas, ao entardecer da casa. São horas de suspender tudo, a fuga do mundo, o fundo da dor e de deixar cair as paredes. É então que tu entras pelas frestas dos meus olhos para te ver.
Há muitas luas nos teus, quando os beijo em silêncio. Tu sabes. Eu sou apenas aquela que te suaviza a fronte, mesmo quando não chegas a nenhumas horas.
As escadas marcam o andar do tempo, pelos patamates da fala, hoje silêncio, ontem silêncio e cada vez mais a distância da chegada. Mas vens.
Vens com tantas luas na voz e eu não sei mais do que percorrer os cantos onde te inscreveste na última chegada. Desabou o teto e só esta armação que seguro com os meus ossos ainda nos sustem nela.
A casa abana com o vento, uma brisa fresca que nos lava o coração. É noite e eu estou sentada nas memórias que construí na casa, porque as paredes estão cheias de versos empilhados por camadas de betão e esquecimento.
Como pudemos esquecer a casa, se é feita de nós com o mais puro pó dos nossos corpos? A tua chegada ilumina os remendos feitos na cal, mas não importa que as coisas sejam agora imperfeitas, nem que as paredes chorem desta humidade, porque tu chegas sempre, acabas srmpre por chegar ao meu coração e é nele que fica a casa que (nos) guarda e resguarda da solidão, a casa por onde nunca quiseste passear com o teu nome, mas onde todas as noites chegas a coberto da emoção.
Deixamos a porta aberta para podermos voltar. É tão fácil abrir e fechar portas antigas. É frágil o seu ranger, inquietante o hálito das sombras, mas precisamos de entrar, em busca dos reflexos de outrora, expressos na voz que a casa ouviu falar.
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