11.8.18

Nostalgia de Lisboa





Lisboa renascentista
Vibravam vozes roucas
Castelhanas e mouriscas
Pregões lusos e bairristas
Varinas com o luto na voz
E pernas, como pilastras,
Cesário as consagrou

Capitães e meirinhos, soldados
e gurmetes
para o porto se encaminham
Levam a aventura às costas
ou um nefasto desígnio

Caleches passam, enfeitadas
Com as armas burguesas das famílias
Abastadas

Africanos pelas esquinas,
talvez escravos
Talvez cristãos livres
Talvez fazendo p'la vida

Tudo se vende, nessa Lisboa
Quinhentista
Mezinhas, especiarias
Tecidos raros, bruxarias

É um ponto de passagem
Das naus que levam à cobiça
Mas todas param em Lisboa
E despejam gente estranha
Na cidade descalça
preguiçosa, tão roliça

Hoje Lisboa do milénio
É um ponto de chegada
Onde as vozes que se ouvem
São discretas e educadas

São orientais ou latinas,
Eslavas ou britânicas
E enchem as ruas de mochilas
E as casas outrora húmidas
Onde assomavam velhinhas são
 hostéis low cost com dezenas
De caminhas

Tudo se vende ainda: relógios, cintos,
Bijuteria chinesa e braços para selfies
Também vindos da China.

Caminhamos nas ruas calcetadas
Com o olhar de Cesário, desapontados,
Entre tuc-tucs e triciclos
Autocarros abertos de turistas enfadados
Por aquilo ser Lisboa, a cidade do fado

A cada minuto, um avião escurece o Tejo
Há transatlânticos no cais do Sodré
onde antes se partia para a pesca
E se desembarcava o sal
A esperança e o café

Lisboa é cosmopolita
Já não é a Lisboa onde antes ia
No elétrico da Madalena
Olhar para os bairros altos
Sentir a vida tranquila

E a Graça apetecia
Os piriquitos cantavam
O castelo à esquerda luzia
Não sei que diriam os poetas
Se vissem assim Lisboa
das suas gentes
vazia

À noite há vida,
Mas é falsa, é feita para ser vendida
Lisboa já foi um lugar de encanto
Onde a noite tinha gumes
Havia paixão e boémia
veias abertas, poesia

Camões, Cesário e Eça, capitães
Das naus vencidas, Pessoa ou
Reis na rua do Arsenal,
Talvez sombras de outras romarias
Não reservaram uma B&B ou um AL
Com vista para a montra que é Lisboa
Nesta vida








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