14.8.18

Raízes secas


Que têm as palavras, nestes dias que me cansam, e que será que esgota as palavras e que me abandona mendiga do que não sei,
que têm estes dias que me esgotaram as palavras? E esta voz
quebrada, o olhar parado no meio das palavras, depois de tantas já terem dito
o que urgia dizer. Está dito e não existem combinações que possam dizê-lo de forma mais intensa e vibrante. A solidão das palavras é essa erosão de sentidos que as palavras perderam. A iluminação baça de um jardim que secou com as raízes das palavras. Diz-se, mas
nas palavras só cabem sons, objetos e algumas impressões. Os sentimentos não são de natureza lexical.  Dizê-los é como senti-los, mas o que se diz não nos faz viver 
o que sentimos. Ainda assim, agarro as palavras pelos ouvidos e busco sentido nelas que também buscam sentidos. É um fraco sustento o das palavras, quando também elas se vão semanticamente ocas, como seixos num rio. Não há nada que possa ser mais triste do que as palavras pardacentas com a mesma cor dos dias em que nos perdemos numa qualquer falha do tempo. Não sei que tem este tempo que é tão pouco de palavras. E que será das palavras que sobreviverem ao tempo, espalhadas por montes e fráguas tão fora de tempo?









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