22.10.18

Na quietação dos anjos


Às vezes a água, como a ternura, até transborda
E alaga a claridade que alguns dias não têm
Com a simples sombra do amor

E, agora que é outono
e as folhas caíram do tempo
 para adensar a despedida,
É para o centro das tuas mãos
Que inclino os meus lábios e desejo
Que os teus olhos me ardam na pele

Sem mais dor do que o desejo

Mas antes que a noite chegue, algo retém
O vento no meu peito
Este velho moinho sem voz
Que solta por dentro o derradeiro gemido
E lança com amor o seu último trigo

Devo ser eu na quietação dos anjos
Quando a ar me sobe no peito
E o moinho dança e o desejo
Toma a forma do teu rosto
E a clara ilusão do teu beijo


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