11.12.18

a frágil ressonância de uma voz


todos os poemas são datados
de uma estranha circunstância
nunca ocasionais, as palavras crescem
até não caber

a escrita é toda oblíqua
como a chuva da manhã
solta-se num riacho que arrasta
todas as impurezas
limpa os olhos de todo o sal

no encanto da sílaba
pode mesmo esconder-se
a ruga mordaz do desencanto

que estranha coisa esta dos versos
nunca inocentes
nunca expressos por mãos limpas
sempre farpados de um metal
mais duro que a morte

às vezes, inocentes, podem ser causa
de emoção
outras, insidiosas, são retórica armada
que visa o lugar do coração

quem vive num poema, recebe-o de frente
e assiste ao malabarismo
entre as palavras
uma cai, outra aparece
são só nomes que damos às coisas
quando fingimos ser poetas

ou quando nos aventuramos
em nós, para nos devolvermos
inteiros
à frágil ressonância de outra voz

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