10.12.18
tenho a cidade nas veias
tenho a cidade nas veias e não sabia
amo a cidade como teimosamente quero o campo
odeio o campo, quando vejo a cidade
mas é no campo que sou e serei, um dia
na cidade sou a estrangeira que busca as ruínas
e recolhe cada pormenor dos olhares,
dos cheiros e das conversas nas esquinas
na cidade sou aquela que quer ser
a que cresce para o infinito, sem caber,
a que busca o coração e as veias
mas não tenho muito da cidade.
bebia-a de seguida como a mocidade
e depois parti, removida pelo medo de querer,
as ruas exaustas, passos a crescer
volto para a ver, como quando queria,
e descubro o mesmo querer que tinha
na mesma fuga de não querer
a cidade é um lugar de solidão
não buscas, não encontras, não sabes,
ninguém te vê, ninguém te encontra,
há um anonimato que mata
quem vai à cidade não vive na cidade
a multidão leva-nos sem nos conduzir
e a casa já não é ali ao lado - nem sequer
a vida - entre muralhas, presa e perdida
planto-me no campo - onde me habito
onde me protejo, onde não me engano
nem me perco - porque é o fundo do tempo
limpo e clarificado da pressa do mundo
homens e animais partilham de um estranho destino:
o remoer do tempo, a pausa do tempo, a ilusão
de não haver tempo, na aba das flores
nas rugas, nos beirais - sob as oliveiras
ouve-se o crescer vivo das coisas, como dantes,
podíamos ser meninos de olhos brilhantes
todavia, a cidade - deambular nas ruas
fugir de mim e ser outra, voltar ao tempo,
ser a fuga e o encontro, ser a casa vazia...
todavia o tempo nas calçadas - ser apenas eu -
é pouco para quem tem dentro todos os momentos
de todas as vidas que não pôde ser. Abdico-me.
transmudo-me nas pedras da muralha velha,
onde cada ser sabe exatamente o lugar do Sol
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